Entrevista a Orlando Sá

Orlando Lopes de Sá é mais um dos autores portugueses que a MEBO Games tem o prazer de editar. Connosco publicou Porto, um jogo que venceu vários prémios nacionais e que tem tido a aceitação dos jogadores de todo o mundo. Falámos sobre a experiência de jogar, de criar e da interacção humana nos dias que correm.

1. O que mais gostas nos jogos de tabuleiro e de que forma isso se reflete nas tuas criações?

O que me atrai nos jogos de tabuleiro modernos é o factor social e o facto de todos em volta da mesa se conectarem através de um elemento analógico e não através do digital, ao contrário do que que acontece com grande parte das interacções humanas na última década. Nos meus jogos, procuro sempre potenciar a interacção entre os jogadores, de forma a que os jogadores não tirem os olhos do tabuleiro de jogo e, como tal, se esqueçam dos seus telemóveis ou de outras distracções.

2. Tens feito muitos jogos cuja temática é Portugal. Para a MEBO Games criaste o jogo Porto que teve muita aceitação por parte da crítica ganhando inclusivamente muitos prémios. O que te atraiu ao tentares recriar a icónica zona riberinha dessa cidade e quais foram as dificuldades que sentiste ao transpor isso para o tabuleiro?

A ideia foi partir dos princípios acima explicados e usar uma roupagem temática que fosse reconhecível por todos os jogadores (tema nacional, ícones conhecidos), onde as regras fossem intuitivas, simples, mas que potenciassem o máximo de interacção entre os jogadores. No Porto, nunca existe interacção propriamente negativa entre os jogadores, porque mesmo que um jogador negue uma oportunidade a outro, ele estará invariavelmente a abrir outras oportunidades. Os mecanismos do jogo resultaram de uma forma muito natural (começa-se a construir pelo rés-do-chão, os pisos têm que ser da mesma cor, quando se chega ao topo coloca-se um telhado) e o facto das casas não pertencerem a ninguém, potenciou a tão desejada interacção.

3. Um dos aspectos marcantes na experiência de jogar Porto é o tabuleiro que é muito bonito e dá uma sensação de se estar lá. Na verdade, quase que se sente o cheiro do rio. Como foi a tua relação com o ilustrador Luís Levy Lima? Tendo em conta que és arquitecto, sentes que isso influencia a dinâmica que tens com os ilustradores?

Normalmente eu tenho uma relação muito próxima com os ilustradores dos meus jogos porque eu gosto de fazer parte do processo. Como em todas as áreas, a partilha de know how acrescenta sempre, nunca diminui. E eu tento apoiar os ilustradores com quem trabalho de forma a lhes facilitar o processo de ilustração. No Porto, sendo o meu primeiro jogo, não tive a oportunidade de seguir todo esse processo, mas fiquei muito feliz pelo resultado final. A equipa de desenvolvimento da MEBO e o Luís fizeram um trabalho notável.

4. Em tempo de pandemia, como geriste esta tua paixão por jogos de tabuleiro? Jogaste muito ou aproveitaste para avançar nas tuas próximas criações?

Costuma-se dizer em tom de brincadeira que um designer de jogos só tem tempo para 2 das seguintes 3 hipóteses: Família, Jogar, Criar. Como a minha família é a prioridade número um, tenho de dividir o meu restante tempo entre jogar e criar. Isso leva a que nunca consiga jogar tudo o que quero jogar e a que não tenha o tempo desejado para avançar com todos os projectos que estão em desenvolvimento. Esse balanço é por vezes frustrante, mas faz parte das chamadas “dores de crescimento”. Talvez um dia tenha a possibilidade de trabalhar a tempo parcial na criação de jogos e assim ser capaz de restaurar um balanço mais eficaz entre jogar e criar.

Entrevista a Paulo Soledade

Conversámos com Paulo Soledade, um designer que já nos trouxe jogos Arraial, I Love Portugal, Panamax e Reis de Portugal.  É também co organizador da maior convenção de jogos de tabuleiro do país, a LeiriaCon que chama todos os anos a essa cidade milhares de entusiastas. Uma vida dedicada aos jogos de tabuleiro e a ter sempre a mesa cheia de amigos para jogar.

1. O que mais gostas nos jogos de tabuleiro e de que forma isso se reflete nas tuas criações?

Toda a minha vida, desde quem me lembro, joguei jogos de tabuleiro. Jogo porque gosto do jogo em si mas, principalmente, porque gosto do contexto da noite de jogos. Quando o jogo não tem as características que eu acho que deve ter para mobilizar essa noite de jogos, fico algo desapontado. Significa que, sobretudo com a quantidade de jogos diferentes que agora existe por aí como oferta, perdi tempo com um jogo ao invés de ter jogado outro. E tempo é o bem mais precioso que damos de nós. Quando faço um jogo tento fazer com que esse tempo seja uma oportunidade para que ninguém saia desapontado. Nunca se consegue atingir esse objetivo para todos mas, pelo menos, conseguir para a maioria dos que jogam, é o que tento fazer. Resumindo, quem joga um jogo meu não pode sair desapontado com o tempo que ofereceu ao jogo. Esse é o meu objetivo.

2. Tens feito muito jogos cuja temática é Portugal. Para MEBO Games  criaste os jogos I love Portugal, Arraial e um desafio de cartas chamado Reis de Portugal, todos em parceria com o Nuno Bizarro. Quais foram as dificuldades que sentiste ao transpor o país para o tabuleiro e como é trabalhar em parceria na criação de um jogo?

Trabalhar em parceria é a única forma que conheço de trabalhar. Nós não dividimos o trabalho, cada um faz tudo, em constante discussão para chegar ao melhor resultado. Existem dificuldades mas, uma vez entendendo as dinâmicas de funcionamento – e nós já o fazemos há tempo suficiente para as entendermos – o trabalho decorre de forma normal. Quanto a transpor pedaços de Portugal para os jogos, não é diferente de transpor pedaços de outros países ou circunstâncias. Temos temas e soluções tão ou mais convenientes quanto as que podem aparecer de outros locais. É tudo uma questão de percebermos porque estamos a fazer o que estamos a fazer e, nesse momento, o trabalho fica simplificado.

3. Para além da criação de jogos, estás envolvido na organização da LeiriaCon que sempre foi considerada a melhor convenção de jogos de tabuleiro em Portugal. Este ano foi cancelada. Como te sentes em relação a isso e quais são os planos para o futuro da convenção.

Creio que todos nós na organização (Spiel Portugal) nos sentimos frustrados por não haver LeiriaCon, novamente, em 2021. Mas esse é um mal muito poucochinho quando pensamos na realidade por detrás de tudo isto. Em 2020 a decisão (errada) foi primeiro de adiar a convenção e depois cancelar. Não percebemos a dimensão do que aí vinha. Em 2021 decidimos, dadas as circunstâncias do que aí estava, algo que começamos a perceber melhor, avançámos para o cancelamento imediato, que sentimos ser uma inevitabilidade e, acima de tudo, a coisa certa a fazer. Esperemos que exista LeiriaCon em 2022, não tanto pela convenção mas pelo que isso representa como resultado da luta contra a COVID. Seria muito bom sinal. E de preferência queremos voltar a ter a mesmíssima convenção que tivemos em 2019. Esse é o nosso objetivo agora, esse é o nosso plano para o futuro – conseguir ultrapassar o passado recente voltando ao passado mais passado, voltar a 2019.

4. Em tempo de pandemia, como geriste esta tua paixão por jogos de tabuleiro? Jogaste muito ou aproveitaste para avançar nas tuas próximas criações?

Joguei muito pouco, quase nada. Os jogos para mim, mais que uma atividade de família, são uma atividade de amigos. Os amigos não se juntam neste período. Com algumas excepções em que joguei online, algo que não gosto particularmente mas que acabei por fazer um par de vezes, quase nunca joguei. Claro que no meu trabalho diário preciso de estar em contacto direto com jogos e, portanto, não sinto essa urgência da mesma forma que outros possam sentir. O que me falta, voltando ao início da nossa conversa, é a noite de jogos e esse contexto em que o jogo é o pretexto para nos juntarmos. Isso faz-me muita falta.

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